domingo, 8 de dezembro de 2013

Províncias – Crônicas da alma interiorana, de Marcelo Canellas

Nesta semana levei Províncias – Crônicas da alma interiorana, de Marcelo Canellas, para a cama. É um livro de crônicas do premiado jornalista que, como o próprio título sugere, trata da vida no interior do Brasil. Mais especificamente, o interior do Rio Grande do Sul, onde ele nasceu e cresceu antes de percorrer o mundo como repórter, e algumas passagens por outros brasis com os quais teve contato ao longo de sua carreira.

Em O Guri e o Elefante, por exemplo, Canellas descreve o sofrimento de um garoto prestes a perder o circo que parte. “Livre, o guri faminto se aproxima. Preso, o elefante saciado espera. Então, o moleque estica o braço, tromba de menino. O bicho estende a tromba, braço de elefante. Os dois se tocam com curiosidade e ternura mútua. O guri pensa ouvir uns muxoxos muito humanos do hálito irracional que emana da jaula”. Quem é o guri? Canellas? Fica a cargo da interpretação do leitor.

A morte da Vaca é um mini conto – não fica claro se é ficção ou realidade – que narra o calvário de uma vaca fujona e desobediente prestes a ser sacrificada por seu dono, apesar dos apelos dos filhos e da esposa. Em menos de duas páginas, o leitor prende a respiração como num filme de suspense. Ao final... – ops, não posso fazer spoiler. Ironicamente, escolhi esses dois textos que falam de animais para citar aqui, pois também nasci no interior e, na infância, tive muito contato com os bichos. Mas os assuntos tratados por Canellas, com um verniz de sofisticação único, são variados.

As setenta crônicas, resultado de um garimpo em mais de quinhentas publicadas em diversos jornais, são rápidas, não passando de duas páginas cada. Uma leitura simples e leve – a densidade fica por conta da maneira com que o escritor relata o que sente em relação aos lugares e personagens –, que nos faz interpretar visão "provinciana" de Marcelo Canellas.

Como sou fã de crônica, só parei quando li a última. E recomendo sem medo de errar.

Marcelo Canellas, repórter especial da Rede Globo, é muito lembrado por suas coberturas de temas ligados a direitos sociais e humanos. Venceu os prêmios Vladimir Herzog e Ayirton Senna de Jornalismo, com a reportagem 'Fome' exibida no Jornal Nacional em 2001 - matéria que também lhe rendeu uma medalha ao mérito da Organização das Nações Unidas.

domingo, 1 de dezembro de 2013

GUARDAR, de Antonio Cicero

Fiz uma leitura de 'Guardar', uma das obras do poeta Antonio Cicero que eu mais amo. Como gravei tudo num take só, tomei a liberdade de suprimir algumas palavras para que me caísse melhor a tonalidade; para que a respiração não me traísse no meio do caminho.

Veja:




Aqui, todos os versos:

GUARDAR
Antonio Cícero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Geografia da Esperança

de Cristina Baumgarten

Em 1850 um grupo de imigrantes alemães, capitaneado pelo Dr. Hermann Otto Bruno Blumenau, chegou ao sul do Brasil para aqui estabelecer uma importante colônia. Do pequeno povoado formado por essas pessoas que vinham da Europa em busca de uma nova vida, surgiu a cidade de Blumenau, hoje um grande pólo da indústria têxtil, de tecnologia da informação e um dos maiores expoentes da cultura germânica nas Américas.

Baseada nessa saga, a escritora Christina Baumgarten escreveu A Geografia da Esperança, um romance histórico. A obra serve de unificação para o imaginário coletivo, que, a partir da leitura começa a ter uma ideia de como eram e como viveram os pioneiros que enfrentaram a fúria dos mares e os desafios de desbravar e viver em um lugar tão longínquo. Pesquisadora, Cristina brinda o leitor com sua visão romanceada dos fatos. O cotidiano dos pioneiros é ficcionalmente apresentado, com muitos diálogos.

O título cai muito bem ao livro, pois do começo ao fim a escritora mostra que o que move o ser humano é sim a esperança. O Dr. Blumeanu, imbuído de um espírito aventureiro e com o aval do império brasileiro, recrutou um grupo de compatriotas que não viam mais uma luz no fim do túnel em seu país, para viajar ao Brasil em busca de uma nova vida.

Porém, apesar de ter em mãos uma história fantástica para contar e uma imaginação produtiva, Christina não apresenta um estilo diferenciado – que é o que se espera em um romance histórico. A autora não consegue transpor as barreiras do interesse local. Não há muitos elementos surpresas e, por vezes, a história se torna repetitiva.

A linguagem é simplória, sem muito rebuscamento – outra característica encontrada em romances históricos, mas que não se vê neste caso.

Destaque também para o prefácio do então prefeito da cidade de Blumenau, Sr. Décio Lima, que não poupa elogios à escritora e aproveita para jogar com o bairrismo local, imortalizando sua demagogia política.

Ainda assim, principalmente pelas características apresentadas no início dessa resenha, vale a pena ler. No mínimo você vai passar a imaginar a gênese da cidade de Blumenau e entender que, apesar do que os que não se aprofundam na história dizem, não foi um início muito glamoroso.

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© A Geografia da Esperança - Um romance dos pioneiros de Blumenau
© Christina Elisa F. Baumgarten
© Hermann Baumgarten Editora Ltda. (HB Editora)
© 2002