sábado, 29 de novembro de 2008

Ensaio sobre a Angústia.


Google Imagens

Era domingo, 23 de novembro de 2008.

Eu havia passado o final de semana em Joinville, vi pouca televisão, evitei principalmente os noticiários, como sempre procuro fazer nos finais de semana.

Às duas da tarde voltei à Blumenau, estava chovendo muito e no caminho percebemos, eu e um amigo, que o trânsito estava lento. Na rodovia, próximo a Guaramirim havia uma fila de carros, imaginei que se tratava de um acidente. Só depois que a fila andou percebemos que estávamos passando pela primeira barreira que havia sobre o asfalto. Era uma pedra enorme que obstruía uma das pistas.

Pelo caminho até Blumenau a mesma cena se repetiu por mais umas quatro vezes, então concluí que a situação era séria.

Na entrada da cidade havia uma retro escavadeira trabalhando para retirar uma árvore caída sobre as duas pistas. A chuva estava mais forte agora.

Meu amigo resolveu voltar porque ficou com medo de não conseguir sair da cidade. Como moro no centro, em 5 minutos estaria em casa, só precisava pegar um ônibus. Não havia ônibus.
Na principal avenida da cidade, os lojistas estavam retirando as mercadorias, eu pensei: "que povo maluco!". Foi minha primeira experiência com a enchente - espero que seja a última. Os blumenauenses já são traumatizados, agora eu entendo.

Fiquei realmente sem saber o que fazer quando percebi que a Rua Floriano Peixoto, desde a esquina com a avenida Sete de Setembro até o Hospital Santa Isabel, parecia uma enorme lagoa de água suja. Era impossível chegar em casa sem passar pela água, mas eu não tinha escolha.

Dei a volta no quarteirão e fiquei pensando numa saída para aquele pesadelo.

Um motoqueiro veio lentamente pela água. Prestei atenção no trajeto dele, segurei firme minha mochila das costas e ergui a maleta que trazia na mão e entrei na água. Tive medo de morrer eletrocutado ou caindo em um buraco, mas fui até o fim.

Moro no topo do morrinho ali da Floriano, em frente ao Colégio Pedro II. Nessas alturas minha rua tinha se transformado em um estacionamento com todos os tipos de carros que couberam, inclusive por cima da calçada. Parecia locação de filme americano, destes que profetizam desastres naturais.

Um “flanelinha” auxiliava os motoristas. Ele não era nenhum adolescente, imaginei que naquele momento talvez sua família estivesse em apuros e pensei: "o Brasil é isso aí, não há tragédia que abale a criatividade deste povo".

Quando cheguei em casa estava molhado e com barro até a cintura, tomei um banho quente e liguei a televisão. Meia hora depois faltou luz e o rádio anunciava que faltaria água também. Meu celular estava com pouca bateria, só conseguia pensar na minha mãe vendo o noticiário na televisão.

Na segunda-feira a luz voltou bem cedo e a TV. local mostrava imagens perturbadoras dos morros que caiam levando o que encontravam pela frente. Casas inteiras foram soterradas em bairros pobres e em regiões nobres da cidade, ricos e pobres foram afetados. As águas do rio transbordaram e milhares de pessoas estavam desabrigadas, outras tantas haviam morrido. Todo o Vale do Itajaí estava em estado de calamidade pública.

Os números da tragédia são perturbadores, não os irei repetir aqui. Quero apenas deixar registrados meus sentimentos às famílias das vítimas, aos colegas de trabalho que perderam tudo e aos que ainda correm risco. Que Deus console os corações e que a vida lhes devolva a paz de espírito tão característico deste povo alegre e muito trabalhador.

Somos Brasileiros, não desistiremos NUNCA.

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