domingo, 14 de junho de 2009

A história e a memória


Neste domingo, eu e mais três amigos da faculdade fomos recebidos pela Sra Anne Prayon, 98 anos, em sua residência, no bairro Bom Retiro em Blumenau. Nascida Hering, Anne recebeu o sobrenome do marido, um empresário do ramo têxtil que mais tarde a levou morar na Alemanha de onde voltaram somente depois da Segunda Guerra Mundial.
Ela é uma senhora gentil lúcida e ativa – a governanta nos disse que Anne costuma ‘cuidar’ do jardim e recolher os ovos das quatro galinhas que cria no fundo do pomar e recebe algumas amigas para jogar cartas durante a semana.
O fato é que a Sra Prayon tem dificuldades para ouvir e não consegue expressar-se muito bem em português. Há momentos em que sua memória falha por isso resolvemos usar a guerra como referencial de tempo para ela. Sempre a questionamos se os fatos ocorreram antes ou depois da guerra.
É interessante a delicadeza de se documentar um fato, sobretudo se a estória em questão aconteceu há muitos anos. Quando há fatores que tocaram profundamente os personagens envolvidos – neste caso a guerra, a sensibilidade do repórter deve ser bem mais apurada. Houve momentos durante a entrevista em que me questionei se aquilo ocorrera mesmo ou se ela estava fantasiando ou misturando memórias.
O que sentimos é que a Sra Prayon tem uma forte ligação com a Alemanha, tanto que ainda hoje vê canais alemães na televisão. Perguntamos se ela tem um poema ou frase que gostaria de nos dizer e ela disse que não se lembra de nada em português. “Depois da guerra, meu marido resolveu voltar para o Brasil (...) agora eu prefiro o Brasil, mas quando voltei de Berlim senti muita falta. Não foi fácil me acostumar", disse ela.
O que nos levou a conhecer essa simpática senhora foi uma etnografia de bairro que estamos fazendo para conclusão da disciplina de Teoria da Comunicação na academia. Escolhemos o Bom Retiro e a história da família Hering se confunde com o surgimento deste bairro. Em 1880 seu avô, Hermann Hering fundara a "Trikotwaren Fabrik Gerbruder Hering", que mais tarde passaria a se chamar apenas "Industria Textil Cia Hering". A sede da empresa atraiu trabalhadores que foram recebidos com alojamentos aos arredores da fábrica, dando início ao bairro.
Sobre os meios de comunicação na época da sua infância ela nos relatou que o correio trazia a correspondência uma vez por semana na fábrica, e então as cartas eram entregues aos destinatários. Geralmente o fluxo maior de correspondência vinha da Alemanha, pois muitos parentes da família ainda viviam lá.
Ela não lembra se o jornal era entregue todos os dias. Disse também que o primeiro automóvel de Blumenau era do dono do cinema. A família Hering, nessa época se locomovia com carros de bois.
Quando terminaram o que hoje equivale ao ensino fundamental, ela e os irmãos foram estudar em São Paulo, pois além de Curitiba, este era o lugar mais próximo para fazer o “segundo grau”.
Conseguimos fotos (poucas) da família Hering-Prayon para ilustrar nosso trabalho.
Na próxima semana tentaremos contato com o filho da Sra Prayon,Hanns Prayon,que volta de uma viagem à Berlim (ele foi cônsul da Alemanha no Brasil por 36 anos), e então colheremos os depoimentos dele para contextualizar com a visão dela. A idéia é mostrar a evolução dos meios de comunicação nas várias gerações da família Hering-Prayon.
A Etnografia de bairro será apresentada ao corpo docente do curso de Jornalismo do Instituto Blumenauense de Ensino Superior, no dia 01 de julho de 2008. O vídeo e os documentos coletados na pesquisa ficarão expostos para visitação pública neste dia, depois postarei aqui no blog para consulta de todos.
Foto: Sra Anne Prayon, Rosangela Lara, Stefany Pessoa e Cícero Nogueira

2 comentários:

Nagi... disse...

Oi.
Meu nome é Nágela e estou concluindo meu curso de publicidade.O meu trabalho de conclusão de curso é sobre moda e comunicação e a a marca que estou estudando e a Hering.Estou tendo muito dificuldade em escrever sobre o histórico da família.Se você tiver algum conteúdo e quiser enviar meu enmail é nagelav@gmail.com

Cícero Nogueira Neto disse...

Mil perdões Nágela. Estou reorganizando o blog e só agora vi seu comentário. Deverias ter me enviado um e-mail... sinto muito.
Espero que você tenha conseguido material para sua pesquisa. Bueno, se ainda tens interesse, te conto que agora abriu o Museu Hering aqui em Blumenau. Ainda não visitei mas, dizem que lá tem um acervo muito grande de materiais sobre a história da marca, da família e curiosidades. Se ainda estiver buscando, me manda um e-mail que articulo por aqui e te informo com quem podes conseguir.
Abraço.