quarta-feira, 29 de julho de 2009

Carta à princesa

Precoce garota das castanholas, feia e arrogante desde a infância.
Tua infantil inveja comprou a dignidade do artista, tua ambição te levaria à loucura.
Mordestes a orelha do príncipe com seus dentes horripilantes, mas não recusastes a coroa. Teu portañol medonho feria os ouvidos.
Quando te lançastes ao mar, tu e tua comitiva, em disparada para não perder a cabeça, trouxestes contigo algumas das pragas do Egito.
Tuas vestes reais e jóias de ouro roubado conheceram o novo mundo. Ai do povo, que por aqui vivia. Cuspistes na terra que te acolheu. Cuspir e blasfemar eram tuas especialidades.
Dominastes teu frouxo marido como a amazona domina o cavalo. Teu desejo insaciável e voluptuoso fizeram tua fama espalhar-se por terras longínquas.
Quisestes dominar o mundo - tuas faculdades mentais não lhe ajudariam chegar a tanto. Em vão sonhastes ser rainha nas Províncias do Prata, nunca lhe foi ensinado que para reinar se faz necessário ter súditos e aliados.
Quando retornastes às terras, que também não eram tuas, por aqui não deixastes saudades. Deixastes as pragas do Egito e os costumes que impregnaram o povo de sentimentos lamentáveis.
De forma furtiva e inesperada chegastes, e como um ladrão que foge pelos telhados partistes levando contigo as últimas gotas da riqueza de um povo que não te pertencia, que não te queria.
Agora jaz em Lisboa, protegida pela liberdade que somente o tempo, e a história, dão às megeras.
Durma em paz, se em paz conseguires descansar, Carlota Joaquina.

* Sugestão de Leitura:
CARVALHO, pinto de. Os amores de Carlota Joaquina, Lisboa: Apenas Livros,2004. 333p.

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