quinta-feira, 30 de julho de 2009

Crítica especializada

Ontem revendo algumas anotações em cadernos e livros do tempo do segundo colegial, me deparei com um texto sobre a Semana de Arte Moderna de 22, então veio a inspiração para a seguinte crônica:

Correio Paulistano-30 de fevereiro de 1922



************************ A arte moderna. ***************************************

Não resta dúvidas de que vivemos tempos de turbulências no campo das artes, sejam elas plásticas, das letras ou música. Nossos jovens artistas já não respeitam mais as regras, não há limites para suas férteis imaginações.
O que antes era deleite individual ou até em grupos seletos de indivíduos educados, como ler uma boa poesia, agora é gritado em praça pública, banalizado. Nossos jovens poetas vociferam nas esquinas como vendedores de feira livre. Querem declamar seus versos contorcendo seus corpos, rodeados de ignorantes que não lhes compreendem uma só palavra.
Vejam que o concerto de Villa-Lobos, ocorrido em 17 de fevereiro, deixou a vanguarda da música erudita de cabelos em pé. Onde está a música clássica e imaculada do jovem prodígio?
Com essas idéias trazidas da Europa, nossas donzelas agora estão pintando obras de gosto duvidoso, com elementos indecifráveis, e cores exuberantes. O que dizer d'O Abapuru de Tarsila do Amaral?
Quem é o Abapuru? De que lugar obscuro da mente de uma jovem de boa família paulistana saiu tal criatura? Suas pinceladas estão disformes e ousadas. Durante a exposição na tal Semana de Arte Moderna, não era difícil encontrar pessoas que se detinham durante horas diante da obra, talvez para decifrar onde começa e onde termina o corpo da criatura de pés e mãos humanos e corpo de sabe-se lá o que...
Essa estética chocante e descomprometida é a Arte Moderna? É isso que se produz na Europa?
Esperemos que esta onda passe e nossos artistas voltem a produzir arte de verdade, recolham seus altares da praça e acertem nas notas. Talvez antes do próximo inverno, afinal será verão na Europa e a moda será outra por lá também.
M.Lobato


N.A - A semana de Arte Moderna foi duramente criticada na sua época, por intelectuais e artistas conservadores como Monteiro Lobato. Isso não impediu a revolução das artes no Brasil e as influências destes artistas estão presentes até hoje na produção cultural do país.
** Este texto é fictício.
* Sugestão de leitura:
REZENDE, Neide. Semana de Arte Moderna. Ed.2. São Paulo: Atica, 2006. 80p.

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