sábado, 16 de outubro de 2010

Em nome de Maomé

-> resenha do documentário Charges Sangrentas

Um povo se sente ofendido porque o seu líder espiritual é ridicularizado. O caso toma proporções mundiais e mais de 150 pessoas são mortas em ataques às embaixadas dos "erejes"" que ousaram satirizar a fé. Líderes políticos, que também se dizem guias espirituais vêem ali uma ótima oportunidade para ampliar seu poder de manipulação das massas.


Não é ficção. Em 30 de setembro de 2005 o jornal dinamarquês 'Jyllands Posten' publicou uma série de charges que satirizavam o profeta Maomé, o líder maior do islã. Na sequência jornais de toda europa reproduziram os desenhos como forma de apoio ao vizinho, o que alterou ainda mais os ânimos da comunidade muçulmana. Estava instalada uma crise de proporções mundiais. De um lado os milhares de muçulmanos que se sentiram ofendidos e de outro a imprensa ocidental que discutia a liberdade de expressão, uma das diretrizes da democracia.

É disso que trata o documentário do jornalista Karsten Kjaer. Intitulado oportunamente de Charges Sangrentas, o filme é narrado pelo próprio jornalísta. Faz parte de uma série chamada "Porque Democracia?", um projeto exibido em 35 países ao redor do mundo. O canal Futura apresentou a séria para o Brasil.

Karsten é conhecido na Dinamarca por seu humor ácido e sua maneira pitoresca de fazer jornalismo. Para Charges Sangrentas percorreu países do Oriente Médio, como Líbano e Irã para tentar entender o poder que a imagem do Profeta representa ao povo e entrevistar políticos e ativistas que participaram das manifestações.

Entremeado com imagens dos protestos violentos em que centenas de pessoas queimam bandeiras da Dinamarca e atacam embaixadas daquele país, o filme mostra ainda a saga de um editor francês que foi processado por uma associação de islâmicos na França, o que gerou uma crise ideológica em toda a Europa. O julgamento é um dos ganchos dessa reportagem de 50 minutos de duração, pois a decisão da Suprema Corte de Paris só é exibida no final.

Karsten defende a liberdade de expressão. Ao passo que são entrevistados os desenhistas e editores que atearam fogo no estopín, o repórter também mostra a indignação dos muçulmanos que desempenharam papel importante durante a crise dos cartoons, não sem mostrar a tremenda privação da liberdade que eles sofrem em seus próprios países.

Mas o documetário também pergunta quanto devemos ser tolerantes com os que pouco toleram e até onde a liberdade de expressão deve ser limitada, ou comedida, nos países assumidamente democráticos. Até onde as ideologias, sejam elas religiosas, políticas ou filosóficas, devem limitar o poder de crítica da imprensa ou da arte? Até onde a mídia deve chegar com sua liberdade?

Ele fez questão de mostrar as dificuldades de se conseguir as entrevistas com os líderes muçulmanos. Há um momento em que o entrevistado fica tenso no outro lado da linha e o repórter tem que apaziguar a situação, apesar de contrariado. A música passa uma certa tensão e a fotografia ágil, típica desse gênero cinematográfico, contribui com o dinamismo da reportagem.

Em um mundo onde o políticamente correto cresce na mesma proporção que a intolerância ao diferente, esse documentário certamente traz uma discussão muito enriquecedora, pois analisa e narra o impasse com um olhar mais neutro. Aquém do calor do momento, em que a imprensa mundial discutia a censura ou a auto-censura, Karsten consegue mostrar outro ângulo dessa crise mundial.
Abaixo a primeira parte (versão da RTP):

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