sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Qualquer cretino reza

Qualquer cretino reza. Essa frase do cineasta americano Woody Allen figurou por dias no perfil das redes sociais que eu faço parte. Achei simplesmente fantástica. Ele é fantástico, acredito que um dos maiores artistas do cinema americano atual, comparado ao que Almodóvar é para o cinema hispânico – arte refinada e inovadora.

Pois bem, a frase supracitada foi retirada da obra Fora de Órbita, uma compilação de contos e crônicas anteriormente publicados no The New York Times e que fazem referência ou são inspirados em notícias publicadas no jornal. São 18 capítulos construídos à maneira Allen, cheios de neologismos (principalmente nos nomes dos personagens) e situações cotidianas ridicularizadas, como só ele sabe fazer.

O melhor conto, a meu ver, é ‘Ginástica, erva - venenosa – Edição Final’. Winston Snell é um magnata de Wall Street que enviou seu filho para uma colônia de férias. Lá o garoto produziu um filme e posteriormente ele quis vender a obra a um estúdio de cinema, porém o proprietário da locação, Sr. Vernizman, acredita ter direitos sobre os lucros da obra. A partir daí, através de cartas, os homens se atacam de várias maneiras até chegarem num acordo de quanto cada um terá de participação nos resultados obtidos. Interessante como inicialmente as cartas são formais e educadas e vão baixando o nível conforme o calor da discussão aumenta:

“(...) Por fim, que este seja o ponto final de todo e qualquer contato entre nós. Toda a correspondência daqui em diante deverá ser remetida diretamente para a firma Pancada e Pancadão Advogados.
Au revoir, babaca.
Winston Snell

Ganhei esse livro de uma amiga que não chegou à segunda crônica porque não entendeu "bulhufas nenhuma do que ele queria dizer”. Não culpo minha amiga que, aliás, é uma pessoa muito culta, pois Allen é de uma singularidade impressionante e, muitas vezes, fica difícil interpretar suas metáforas, seus neologismos e ironias – é daqueles autores que você tem que reler parágrafos para se certificar que está entendendo – ou ainda faz referências a obras e pessoas pouco conhecidas. Se você esperar uma leitura rasa certamente irá abandoná-lo rapidinho.

Recomendadíssimo.

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