segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cala a boca, Clarín

É essa a mensagem que o governo autoritário da Argentina está tentando dizer ao maior grupo de comunicação daquele país.

No domingo, 27 de março, piqueteros financiados por sindicatos – que por sua vez têm a conivência do governo – impediram a circulação do maior jornal da Argentina, o Clarín. Numa ação que mobilizou centenas de pessoas a gráfica que imprime o diário juntamente com o La Nación, foi impedida de embarcar os exemplares nos caminhões das distribuidoras. Tudo na presença de dezenas de policiais que assistiram ao “movimento” de braços cruzados.

Como protesto o Clarín distribuiu a edição da segunda-feira, 28, com a capa em branco (foto).

Hoje (04/04) o La Nación denunciou, na edição impressa, mais um ataque ocorrido ontem em Córdoba, a segunda maior cidade do país. Os diários La Voz Del Interior e Día a Día (também do Grupo Clarín) foram impedidos de circular, com o mesmo método utilizado em Buenos Aires. A equipe apressou-se e disponibilizou todo o conteúdo na internet.

Ao contrario do que ocorreu na Capital, o governador da Província de Córdoba, Juan Schiaretti, ordenou que forças militares agissem providenciando a liberação dos caminhões que distribuem os jornais e publicou nota em que condena veementemente os ataques à liberdade de expressão. Ainda assim e o impresso só saiu da gráfica às 12h45min.

Não é de hoje que a imprensa tem sido atacada na Argentina. Todos os veículos de comunicação que ousam contrariar o governo têm sofrido represálias. Inicialmente as sanções eram apenas financeiras – as empresas que se aliaram ao autoritarismo foram agraciadas com contratos milionários em publicidade oficial enquanto as outras sofrem boicotes – porém ultimamente os ataques ficaram mais duros. No ano passado 200 (sim, você leu bem: duzentos) agentes da Receita Federal ocuparam a administração do Clarín na tentativa de encontrar irregularidades (traduza-se: intimidar). Também naquela ocasião o governo manteve-se inerte, em total desrespeito à liberdade de imprensa.

Os ataques à liberdade de expressão repercutiram nos principais periódicos em todo o mundo e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) do Brasil disse em nota que esse é um ato ‘intolerante e antidemocrático’.

No dia 30/03 a Folha de São Paulo publicou Editorial em que afirma: “Da Argentina ao Equador e da Venezuela à Bolívia, a imprensa independente sofre tentativas de intimidação por governos refratários à essência do jornalismo - apontar irregularidades e malfeitos. O Brasil, ao menos, parece livrar-se do vício de alguns líderes latino-americanos de agredir o mensageiro, em vez de enfrentá-lo com fatos e argumentos”.

Politizados e pensadores que são, os argentinos usaram os meios democráticos das redes sociais para declarar seu repúdio aos atos de repressão à imprensa. Durante quase toda a semana esse foi um dos assuntos mais comentados no Twitter e nos espaços para comentários nos portais de notícias centenas de opiniões a favor da imprensa foram registrados.

Fontes: Folha de São Paulo 
Clarín La Nación Observatório da Imprensa
El País Estadão

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