terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mulheres allendianas

Se tem alguém que constrói personagens femininas com maestria é a escritora chilena Isabel Allende.
"Mis logros más significativos no son mis libros" Isabel  Allende

Sou apaixonado por Zarité Sedella de La Isla bajo el Mar. Ela cresce diante dos olhos do leitor. Quando nos é apresentada é apenas uma ‘mocosa’, frágil e faminta e depois se transforma em uma mulher forte, com sua espiritualidade africana, seus desejos reprimidos e suas pequenas conquistas que nos fazem regozijar a cada capítulo. Nesta obra, narrada em terceira pessoa, Allende insere pequenas passagens em que Zarité conta a história à sua maneira, em primeira pessoa, e isso torna a leitura ainda mais interessante.

Outro dia estive lendo o conto ‘Dos Palabras’, que faz parte da obra Cuentos de Eva Luna. Deparei-me com Belisa Crepusculario. Por já ter conhecido Zarité vi um pouco dela em Belisa (é preciso dizer que Cuentos de Eva Luna foi publicado em 1990 e La Isla bajo el Mar, em 2010). Parece-me que as musas de Allende revivem – ou seria um devaneio de leitor apaixonado?

Belisa é uma desvalida que foge da pobreza no interior desértico de seu país – provavelmente o próprio Chile de Allende, mas isso não fica bem claro – e encontra-se com as palavras que lhe dão uma forma de sobrevivência. Dotada de uma vocação para se comunicar e para vender emoções ela torna-se “vendedora de palavras”, uma espécie de escriba que leva notícias pelos povoados por onde passa, escreve cartas de amor por encomenda e toda sorte de publicações. Sua fama se expande pelos Andes, até que um coronel que deseja se tornar presidente a contrata para que lhe redija um discurso. Além de contribuir com a retórica do tirano, Belisa sussurra em seu ouvido duas palavras para que ele as use sempre que necessário (uma pitada de misticismo, senão não seria Isabel Allende).

Do começo ao fim do conto o mistério que envolve essa mulher instiga o leitor. As duas palavras não são reveladas. Isabel conta apenas que o Coronel se torna perturbado, apesar de seu discurso ter arrebatado as multidões. Ele só volta a recobrar os sentidos quando um de seus servos busca Belisa Crepusculário. Quando a vê, seus olhos turvos e sombrios de sanguinário guerreiro são tomados por uma ternura descomunal, ele a toma pela mão e... e isso é tudo. Tanto as duas palavras quanto o final ficam na imaginação do leitor.

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A primeira vez que li Isabel Allende foi há quase dez anos e comecei por seu livro mais arrebatador, dizem. Li ‘Paula’, uma obra autobiográfica em que a autora escreve uma carta para sua filha que se encontra em coma numa unidade de terapia intensiva por conta de um ataque de porfiria. Foi a primeira vez que, lendo um livro, me vi invadido por uma tristeza tão profunda. Senti compaixão, queira encontrar Isabel e abraçá-la. Quem já leu sabe exatamente do que estou falando. Afinal, não creio que haja dor maior para uma mãe do que ver a vida de sua filha murchar diante de seus olhos - Paula jamais acordou.

Mas o drama familiar não é o cerne da obra. A história de Allende se funde com a história recente do Chile, com a democracia naquele país, com os direitos das mulheres e uma série de fatores que fazem dela uma mulher tão forte quanto suas personagens. A protagonista de ‘Paula’ é a própria Isabel e não sua filha, como sugere o título.

Sou apaixonado por Isabel Allende e pelas mulheres allendianas.

imagem divulgação (site oficial)

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