terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

divulgação
Estive lendo A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, nos últimos dias. É uma obra interessantíssima, tanto que consagrou a escritora no mundo todo e virou roteiro de filme em Hollywood.

A história se passa durante o século XX, contando passagens da vida dos descendentes da família Trueba, mais precisamente, de três mulheres que representam três gerações. O nome das três personagens remete à espiritualidade, visto que Clara, Blanca e Alba (matriarca, filha e neta, respectivamente) dão ideia de claridade, brancura. Justamente essa espiritualidade é que norteia toda a história, com inserções de ideais políticos e até críticas ao regime militar no Chile.

Esteban Trueba é um chileno que nasceu pobre e conseguiu crescer na vida depois que se casou com Clara Del Valle. Ele torna-se um próspero agricultor que explora trabalhadores em Las Tres Marías, sua fazenda, dando-lhes o mínimo para a sobrevivência. Considera que aquelas pessoas são fracas, precisam de um líder, e que os fracos não merecem ter riqueza e conforto, pois não estão preparados para isso.

Clara nasceu com poderes de telepatia, consegue mover objetos e comunicar-se com espíritos. Ela é ligada ao mundo sobrenatural, tornando-se uma mulher alheia às coisas materiais, por vezes parecendo até lunática. Como sua irmã Rosa faleceu, Esteban a escolheu para ser sua esposa. Ela deu à luz Blanca, que mais tarde foi deserdada pelo pai por ter se envolvido com Pedro Terceiro García, filho de um empregado de Las Tres Marías, que tem inclinações para o socialismo. Blanca torna-se mãe de Alba, que marca a terceira e última geração descrita no romance.

Clara enfrenta a bravura e total falta de sensibilidade de Esteban Trueda, Blanca tem de lidar com a impossibilidade de viver seu romance e Alba enfrenta o avô e a sociedade para viver seus ideais políticos e conviver com os acontecimentos de sua época.

Os dois filhos homens também são peças chaves da trama. Jaime e Nicolás foram educados em colégio interno e também não são favoráveis aos ideais do pai, que é senador da república. O primeiro forma-se em medicina e dedica sua vida para atender a pobres e moribundos e o segundo viaja à Índia e volta transformado em vegetariano.

Dois personagens enigmáticos são freqüentemente citados: “O Poeta”, que remete a Pablo Neruda e “O Candidato” que remete a Salvador Allende – para quem conhece um pouco a história política, social e cultural do Chile. Penso que esses dois indivíduos são citados assim, de forma implícita, para deixar claro que a autora está fazendo uma crítica à sociedade chilena do final do século XX. Visto que Esteban Trueda representa o político repressor, autoritário, de extrema direita e sua família representa os jovens com ideais de mudança, que, por terem acesso a informações vindas de outros lugares do mundo enfrentam a fúria de seu pai e da sociedade.

Clara recebe místicos e artistas no “casarão da esquina”, em Santiago. Um dos freqüentadores assíduos é “O Poeta”, que mais tarde se tornaria mundialmente conhecido. Jaime afronta seu pai ao apoiar “O Candidato”, que representa a esquerda que afronta a realidade política da época, iniciando uma nova história naquele país.

Com seu realismo fantástico, o romance pode ser comparado com a obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, principalmente no que diz respeito à passagem do tempo. Além de cada geração ser demarcada por uma mulher (Clara, Blanca e Alba) os personagens Pedro García, Pedro Segundo García e Pedro Terceiro García, também têm importância na trama – uma referência à saga da família Buendía, do autor colombiano.

A narrativa recorre à tática de descrever que Clara, além de suas atividades místicas, se dedica a escrever suas memórias em “livros de anotar a vida”, dando a ideia de que a autora utilizou os diários da personagem para contar a saga. Outro recurso interessante é a inserção de alguns capítulos em que Esteban Trueba narra em primeira pessoa, recontando alguns fatos sob sua ótica – essa, aliás, é uma característica da escritora encontrada em outras obras.

Talvez o mais extraordinário seja saber que se trata do primeiro romance de Isabel Allende. Ela o escreveu no exílio, durante a Ditadura Militar chilena.

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